Pandemia: como Manaus sobreviveu à gripe espanhola?

Tenha por base o texto a seguir, adaptado de um artigo publicado na internet por Waldick Junior, em 18 de abril de 2020, para desenvolver sua redação:

Pandemia: como Manaus sobreviveu à gripe espanhola?

No início, bares, restaurantes e cinemas continuaram abertos.
Depois, o governo teve que contratar caminhões para retirar os corpos das ruas.

Considerada a maior pandemia da história, a “Influenza” ou “gripe espanhola” matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo todo, de 1918 a 1919. Mais pessoas morreram da doença do que nas duas guerras mundiais. Assim como com o novo coronavírus, na época, a pandemia também chegou ao Brasil e ao Amazonas, onde fez incontáveis vítimas.

As mudanças da pós-pandemia refletiram-se na saúde, no saneamento, na higiene básica e até mesmo na economia. Por isso, qualquer semelhança com o novo coronavírus em 2020 pode não ser mera coincidência. O sociólogo Francinézio Amaral explica que, ao longo da história, já ficou comprovado, por meio de teorias sociológicas, que as sociedades humanas, em todas as suas fases, sempre recorrem ao instinto de sobrevivência quando se veem em alto risco.

Ele diz que redução da população, medo de doenças e isolamento social são fenômenos sociais que servem de gatilho para que os indivíduos, mesmo em diferentes níveis, reflitam sobre as melhores formas de construir meios de continuar existindo.

Quem conta como foi a Influenza no Amazonas e em sua capital são os historiadores Júlio Santos e Hideraldo Lima, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no artigo intitulado “A desolação, o pavor e o luto – a história da gripe espanhola em Manaus”.

Logo ao início do trabalho, os pesquisadores relatam a dificuldade para estudar a pandemia do século passado e como ela afetou o Amazonas. “Estudar sobre a história da epidemia de gripe espanhola em Manaus deixa claro que a história das doenças no Brasil e, em particular, no Amazonas ainda é um dos inúmeros temas regionais que necessitam ser pesquisados, dado a parca e insignificante produção historiográfica regional sobre o tema, muitas vezes se configurando um cenário de completo silêncio historiográfico”, diz o texto.

Eles contam que, naquela época, Manaus experimentava um dos seus momentos grandiosos em riqueza econômica por causa da extração da borracha. Países europeus e os Estados Unidos eram assíduos compradores e utilizavam o material para fabricar pneus de carros, dentre outros itens.

“Do ponto de vista demográfico, a cidade recebeu um grande número de imigrantes nacionais e estrangeiros. Segundo os recenseamentos gerais, Manaus passa de 29.334 habitantes em 1872 para 64.614 habitantes em 1910, quer dizer, sua população mais que dobrou em menos de quarenta anos”, contam os historiadores. Eles explicam que, em outubro de 1918, quando a Influenza já estava em sua segunda onda pelo mundo, corriam, nos jornais amazonenses, as histórias de uma “terrível epidemia” que assolava o planeta. Até mesmo noticiavam casos registrados no Rio de Janeiro, Bahia e outros estados.

Os primeiros casos de Influenza em Manaus datam do dia 24 de outubro. A gripe espanhola acometeu soldados da Força Policial do Estado-auxiliar do Exército Ativo. Eles foram atendidos na Santa Casa de Misericórdia, hospital no Centro. Até o fim de 1918, os hospitais da cidade se viram lotados de doentes. A Beneficente Portuguesa e a Santa Casa de Misericórdia, ambas no Centro, precisaram encerrar o atendimento para novos pacientes, dada a superlotação.

Os casos cresceram tanto que os manauaras precisaram lidar de outras formas com a morte. Quando alguém da família morria, os moradores colocavam o corpo na frente de casa e esperavam que o governo o levasse. Naquela época, caminhões haviam sido contratados só para realizar esse trabalho.

Em razão da quantidade de mortos espalhados pelos bairros e pelas ruas da cidade, caminhões da Cervejaria Amazonense, a pedido do Governador, foram utilizados para fazer o transporte dos restos mortais daqueles que pereceram por causa da doença.

Notícia publicada em jornal da época, em Manaus.
(O bairro dos Bilhares atualmente é o da Chapada)

Na época, meados de novembro e dezembro de 1918, Manaus sofreu com a proibição das pessoas entrarem nos cemitérios, já que não podiam enterrar os mortos ou mesmo ver a pilha de mortos que outras pessoas deixavam lá.

Quem tivesse que enterrar seu parente morto tinha que se contentar em deixar os caminhões do governo (polícia, coveiros, agentes sanitários) levarem os corpos de seu conhecido, parente ou amigo sem poder se despedir e sem poder dar um desfecho ao ritual de doença e morte.

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